30.3.06

Saudade de Timor-Leste

Praia da Areia Branca, Díli. Timor-Leste.
(Fotografia de Eugénia Gonçalves)

A Eugénia Gonçalves envia-me esta fotografia por correio electrónico. Crianças na Praia da Areia Branca em Díli. Serve para matar saudades? Não, serve para inquietar o espírito.
A Eugénia foi professora de Português em Timor durante uns anos. Deu o que tinha ao serviço de Portugal. Muitos dos professores de Ensino Secundário que lá estiveram, e estão, foram, e são, criticados injustamente na maior parte dos casos - sou disso testemunha. O seu trabalho era corajoso, empenhado, dedicado, inventivo em muitas ocasiões. Dizem as más línguas que não estão preparados para a tarefa que lhes distribuiram, que foram porque não têm emprego em Portugal, que vão ganhar muito dinheiro, e muitas outras balelas. Teorias, teorias, já diziamos na escola quando éramos putos. Toda a gente séria sabe que não vão preparados para os desafios, é certo, mas quem vai, e quem podia ir preparado? Podiam ir melhor preparados para o que vão encontrar? Sim, sem dúvida. Mas não da forma que para aí se apregoa. Além do mais, a culpa não é seguramente deles, é de que os manda, que não dedicou um segundo de honestidade intelectual a pensar a formação e o enquadramento de que lá colocou.
A maioria dos professores (já agora, convirá dizer que a maioria são mulheres) lutou contra grandes dificuldades, de ordem variada: organizacionais, logisticos, algumas vezes financeiros, falta de clareza das opções políticas, de apoio de rectaguarda e muito mais! Depois, quem cá está, na "metrópole", na "capital", esquece-os com facilidade, não os respeita! «Estão cá (lá) se querem, e fazem o que lhes mandam, porque há muito quem queira!» É Portugal.
Aproveito também para fazer uma homenagem a uma antiga aluna da UNTL (Universidade Nacional de Timor-Leste), a Geovânia Reis, que está a estudar Medicina na Cuba de Fidel. Bom trabalho, boa sorte, boa luta. Aguenta as saudades, tenta matá-las com esta fotografia do paraíso. Um abraço amigo de Portugal, com coração timorense.

28.3.06

Entrevista ao Bispo de Baucau, D. Basílio do Nascimento

Entrevista da jornalista Cecília R. Ximenes
Exclusivo com o Bispo da Diocese de Baucau D. Basílio do Nascimento: “Caso das F-FDTL dá imagem de insegurança, para Timor”

Segundo o Bispo de Baucau, D.Basílio do Nascimento, o problema na instituição das F-FDTL é muito preocupante e gera insegurança. O responsável pela Diocese de Baucau considera que o problema é um “pesadelo” para a segurança da nação e uma má imagem para o nosso país – que, em Timor-Leste, não estamos sossegados e os investidores tpassam a ter medo de investirem no nosso país.

Qual a sua opinião relativamente ao problema que surgiu na instituição das F-FDTL?
A melhor solução é que as decisões sejam tomadas pela via do diálogo. O caso que refere diz respeito a toda a Nação. A situação a que se chegou deveria ter sido tomada pelos tribunais, pois é a instância onde os militares envolvidos poderiam procurar advogados a fim de defenderem os seus direitos. O melhor caminho para resolver o problema… é como tomar uma decisão. A decisão é sempre difícil, porque devemos definir uma linha e um critério. Não há outro caminho, os governantes devem tomar boas decisões para esta nação. Mas, como sabemos, nem todas as decisões agradam – umas pessoas gostam outras não. Não podemos esquecer que quando se toma uma decisão pode haver também injustiça, mas se falarmos sobre a situação militar, penso que é a situação interna de Timor-Leste – conflito, como este, não podemos deixar a decisão para médio ou longo prazo, os que têm voz de comando devem tomar decisões para resolverem esses problemas.

Na petição apresentada constava que alguns membros das F-FDTL foram intimidados com a palavra Loro-Monu e Loro-sa'e, qual a opinião do Senhor Bispo?
Quando dizemos “Loro-Monu” e o “Loro-Sa'e” está certo. Está certo porque nascemos em vários distritos. De Lospalos até Manatuto chamamos “Loro-sa'e”, de Díli até Suai, é o centro do país, e a parte de Liquiçá até Maliana, chamamos “Loro-Monu”. Isso é claro, mas devemos deixar de pronunciar esses termos ou palavras, pois somos todos de “Loro-sa'e” e “Loro-Monu”.

Esta questão poderá gerar instabilidade?
Apenas digo que tem sempre impacto para a Nação, ao longo deste tempo o Governo investiu dinheiro na formação destas pessoas e agora terá de recrutar novos jovens o que leva sempre muito tempo.

Mas outras pessoas comentam que o problema pode criar instabilidade no país?
Não podemos intrujar ou enganar, mas pela minha opinião pode dar impacto sim à instituição militar, mas penso que os militares nessa situação devem ter as suas ideias. Devem pensar que o problema - dos 591 soldados expulsos, agora expulsos - não é o problema duma nação. Agora, outro caso, é a situação de estabilidade desta nação, nós todos, sem excepção, temos direito e razão para protestarmos contra este ou aquele caso, quando sentimos que deve haver justiça, mas há maiores interesses que é o nosso interesse particular, mas devemos ter sim o maior interesse para a Nação, Timor-Leste. Na qualidade de cidadão estou preocupado e não me sinto sossegado, porque com o problema que surgiu nas F-FDTL, sobre a segurança, torna-se um pesadelo porque dá uma imagem do nosso país… que não está estável e, quando há instabilidade, pode dar impacto negativo fazendo com que as pessoas não se aproximem dessa instituição - as pessoas não têm confiança e não ficam sossegadas, sentem medo quando pretendem investir neste país para criar campo de trabalho. Agora, na qualidade de Bispo, não sei qual é a razão que está na base, para os 591 soldados tomarem essa decisão e abandonarem a instituição militar, não sei se vão continuar as suas funções ou não, tentei obter explicação no jornal, mas não consegui, agora o meu apelo é o seguinte: devemos colocar o assunto no seu lugar, o problema da instituição não pode ser ligado a outros problemas e não podemos politizar de forma a que se alastre a fim de destruir a Nação.

O Presidente Kay Rala Xanana Gusmão não quer recandidatar-se em 2007, qual a opinião do Senhor Bispo?
Ora bem, não podemos obrigá-lo, nem atar-lhe a corda ao pescoço para puxá-lo até ao Palácio das Cinzas, para ser Presidente. A personalidade de Xanana, primeiro a pessoa é Xanana e em segundo, o cargo de Presidente da República. Xanana é carismático, é a pessoa que tem a história de Timor-Leste. Se o presidente Xanana não for, devemos dividir e perceber as coisas. O Presidente Xanana, é a pessoa que não desempenha mais a função de Presidente ou que rejeitou ser Presidente, mas Xanana é na mesma Xanana. O nome que Xanana recebeu continua mas é apenas como Xanana, não é como Presidente. Agora, não é porque Xanana não é Presidente da República que deve perder o seu nome não, não, não. Xanana não vai recandidatar-se, pronto!, é o seu direito, como um cidadão timorense. Se uma outra qualquer pessoa é que vai ser Presidente da República, também prossegue a Constituição, pois essa pessoa é que tem o poder não é Xanana. A pessoa que pretende candidatar-se a Presidente deve ter carisma como Xanana. Mas se não tem carisma, como Xanana, então será difícil. Mesmo, que essa pessoa não tenha carisma, como Xanana, quando for eleito pelo povo deve ser Presidente. Mas, espero que Xanana se recandidate e continue a ser o nosso Presidente, caso seja escolhido pelo povo, porque o povo é que conhece Xanana e Xanana conhece o povo.

Com Xanana ou sem Xanana quais as vantagens e desvantagens?
Não tenho dados, mas arrisco a dizer que a vantagem é a de que Xanana será sempre Xanana no seio da população. Sê-lo-á também no mundo internacional, porque ele é um líder histórico. A desvantagem… a pessoa que for eleito Presidente deve estudar, avaliar e seguir Xanana. Mas, para mim se Xanana rejeitar paciência, Timor deve avançar mesmo sem Xanana à frente da RDTL, deve avançar.

O Ministério da Educação e Cultura cancelou a “caixa escolar” no país, porque pretende combater o analfabetismo, em todo o território… o que pensa?
Cancelar a caixa escolar em todas as escolas no território de Timor-Leste... primeiro, governo diz que, baseando-se na Constituição, quando o Estado organiza qualquer escola é de acesso gratuito. Segundo , recebi informações, que baseando-se nos acordos internacionais - as nações que seguem ou adoptam os acordos internacionais devem ter acesso a essas escolas de forma gratuita. Em terceiro, segundo a política internacional, em 2015 todas as crianças de idade escolar devem entrar nas escolas, todas as escolas devem ser gratuitas, segundo os modelos internacionais.

Sente-se o desenvolvimento da educação em todo o país?
Sinto que a educação em Timor-Leste ainda não está no máximo e ainda não é normal, quanto mais, segundo os standarts internacionais. Devemos ver a capacidade interna da Nação, há grupo de países onde não têm escolas. Nós seguimos demais a política e orientação internacional. Então, devemos ver o nosso standart, sentimos que podemos ou não, quando seguimos o interesse internacional gastamos muito, mas quando gastarmos tudo, as pessoas dão-nos um pontapé e ficamos dentro de água, ficamos só a ver porque hoje em dia é era da globalização.

Cancelar a caixa escolar nas escolas públicas afectará as escolas católicas ou não?
A educação continua a andar para frente, a igreja católica tem sempre lugar no meio da educação, através das escolas católicas da diocese de Baucau, em particular, eu próprio, quero fazer esforços para que assim continue. Durante estes anos as duas Dioceses, lutaram contra as dificuldades, agora as mesmas Dioceses enfrentarão maiores dificuldades. Exemplo: abriu mais uma escola privada, sem subsídio, então os pais é que têm de dar uma contribuição. Mas, agora com a decisão do Estado, em que o acesso ao ensino é gratuito, o estudo é gratuito – de acordo com os tratados internacionais em 2015 todas as crianças de idade escolar devem estudar gratuitamente -, a nossa realidade é essa, mas os pais também escolhem as escolas católicas e elas continuam a andar para frente. A Igreja Católica não pode existir só com a Graça de Deus, especialmente, com uma prática como essa, mas a Igreja Católica deve pedir a colaboração dos pais. Se os pais não colaborarem… pronto, a Diocese não terá outro caminho que não seja o de cancelar as escolas e entregar os alunos ao Estado para as educar.

Recentemente, alguns partidos políticos, como o Partido Democrata (PD,) fizeram uma declaração política que, quando o PD ganhar nas eleições gerais, pretendem eleger os dois Bispos como Conselheiros, quer comentar?
Se os partidos pretendem escolher os Bispos como Conselheiros é um pouco difícil, alguns partidos vieram ter comigo a pedir para o Bispo ser o Conselheiro deles. Eu disse-lhes, que no ano passado, quando ainda não era Bispo fui Conselheiro de todos e de todos os partidos, vieram satisfeitos à procura de conselheiro e outros o não ficaram. Os novos partidos vieram e disseram: “o Senhor Bispo pode ser o nosso conselheiro”, mas disse-lhes, que dou conselhos a todas as pessoas, e não é só a uma pessoa. Dou conselho para o partido FRETILIN, ASDT, PSD, PD, PMD, UNDERTIM. Agora sobre a pergunta…Não, se quando integram o Bispo no partido pensam que podem ganhar nas eleições, coitados, isso eles já pensaram até demais, talvez sonhem. Alguns partidos pretendem que podem pedir o Bispo para ser conselheiro, mas penso que para ser conselheiro quando é através do Bispo é para dar a luz e aceitar todas as pessoas. Como eu na qualidade de Bispo, recebo os pobres, os ricos, os políticos, os enganadores, os ladrões e outros mais.

Algumas pessoas comentam, que a Igreja se mete demais na política da Nação… Muitas vezes, dentro da política, as pessoas fazem confusão, todas as pessoas pensam, que a política é apenas a administração, quem é que faz política e quem é que governa?
Política, não é apenas com palavras, mas deve ser em conjunto com todas as atitudes, como um cidadão. Repare, fazer bem para a minha cidade, não significa que quero dar um curso de política. Política, vem da palavra polis o que significa Cidade; e política quer dizer, todas as atitudes e todos os cidadãos pretendem desenvolver a sua cidade, essa é a solução para fazer política, porque conheço melhor a minha cidade, a pessoa que esclarece também faz política, aquele que fala também faz política, uma pessoa que trabalha na administração é política, um empresário faz política, um Padre quando fala também faz política. Mas fala sobre o bem de todos, quando fala sobre a comunidade, não quer dizer que fala sobre a política para se apoderar da administração. Um Padre é como um cidadão, quer dizer que a sua atitude é como doutras pessoas para desenvolver a sua cidade. Não fala de qualquer maneira, mas tem uma realidade, porque é uma pessoa que tem princípios, ética e moral. Mas penso que nem todos os Padres compreendem, portanto, eles também têm a obrigação de contribuir com opiniões sobre todas as atitudes dos cidadãos nesta nação.

Qual a sua visão sobre a situação política do país?
A política continua a andar para a frente, na véspera das eleições a política é sempre calorosa. Nessa altura maltratam-se uns aos outros, entram em confrontos, mas ninguém pode ficar admirado que depois das eleições, os políticos, vão beber cerveja em conjunto nas praias, comer milho assado.

Algumas pessoas comentam que durante estes três anos o processo de desenvolvimento não é normal, qual sua opinião?
Aceito as opiniões, começamos a construir clínicas e escolas. Dizemos que já tem desenvolvimento e que está tudo normal, eu digo que não. Na capital, em Díli, a reabilitação das estradas ainda não está feita, ouvi dizer que do Distrito Suai até Ainaro já construíram auto-estrada. Já construíram, ou ainda não? Mas, quando estive em Ainaro, da vila até Ainaro… demora cerca de cinco horas em viagem.
Jornal Nacional Diário e Jornal Nacional Semanário

25.3.06

Isto também é Lusofonia

Para quê escrever outro texto quando o de outra pessoa, neste caso do Francisco José Viegas, diz aquilo que queremos dizer?

«Agora, o que eu queria dizer é isto: não vejo razão para que, num processo rápido, com documentos claros e com boa-fé (naturalmente, a análise do registo criminal e de outros papéis constantes do processo actualmente em vigor), não se legalizem todos os imigrantes residentes em Portugal, que provem estar a trabalhar e em condições de trabalhar e que, por consequência, aceitem as leis portuguesas. Depois desse processo decorrer é mais fácil e mais justo aplicar as leis de controle à entrada de estrangeiros imigrantes e falar de legitimidade para esse controle. Uma das razões: regularizaria a vida de milhares (muitos milhares) de cidadãos estrangeiros que estão a trabalhar em condições precárias e facilitaria em muito o trabalho do aparelho fiscal (além das contas da segurança social, creio eu).»

(leia o texto integral)

Pontes da Lusofonia


Do lado direito serão colocadas as ligações para páginas da Lusofonia que considerarmos importantes. As primeiras 3:
1. Gastronomia da Lusofonia (a mesa nas prioridades deste blog)
2. A página do CERIT (Centro de Estudos e Reconstrução da Identidade Timorense), feita por estudantes da Universidade Nacional de Timor-Leste no Centro Juvenil Padre António Vieira (Taibessi), iniciada sob a coordenação do Rui Marques.
2. A página do National Security Archive (Universidade George Washington) sobre a questão de Timor (a não perder)
Estaremos abertos a qualquer sugestão. Mande lava.

O sangue do crocodilo

Povos * Lusofonia

Maubara, Timor-Leste
(fotografia de Ângelo Ferreira)

Hoje acordei com uma saudade anormal de Timor. Decidi portanto partilhar convosco mais uma bela imagem da Ilha Verde e Vermelha, e sofrer um bocado aquela dor agradável e inexpugnável. Por baixo da espuma dos dias, permanece uma onda silenciosa, um mar todo, que transporta a intensa relação com o sangue do crocodilo. Palmeiras ondulam verdes, eucaliptos esbranquiçados e contorcidos olham o azul onde mergulha a montanha. A noite desce e com ela o sol cai no horizonte aparentemente devagar. Na Baía há sempre a promessa de um novo dia, uma manhã de cheiros tropicais.