28.4.06

Timor-Leste: Militares dizem-se preparados para guerra, dois mortos e 28 feridos

Dili, 28 Abr (Lusa) - Os militares que hoje se envolveram em confrontos com as autoridades em Dili afirmam-se preparados para a guerra durante manifestações na capital timorense, onde pelo menos duas pessoas morreram e 28 ficaram feridas.
O director do hospital nacional Guido Valadares, António Caleres, disse à agência Lusa que deram entrada no estabelecimento hospitalar "dois mortos e 28 feridos".
As vítimas apresentavam ferimentos de bala e arma branca, disse a mesma fonte.
Na sequência das manifestações de hoje em Dili o comércio está fechado e vários edifícios foram apedrejados, incluindo a delegação da RDP.
Os militares contestam alegadas descriminações de natureza étnica no seio das forças armadas timorenses e na segunda-feira tinham dado um prazo de cinco dias ao Governo de Dili para que desse uma solução à crise.
Ao percorrer a cidade, a reportagem da agência Lusa constatou que a delegação da RDP, situada no rés-do-chão do edifício que acolhe os serviços consulares de Portugal e a representação dos Territórios dos Norte da Austrália, foi apedrejada por manifestantes na sequência dos confrontos hoje em Dili entre as autoridades e vários grupos.
A capital timorense encontra-se praticamente deserta.
Durante a manhã, para dispersar os manifestantes, a polícia disparou munições reais e gás lacrimogéneo.
Os manifestantes estavam a meio da tarde de hoje (manhã em Lisboa) na zona de Taci Tolo, onde está situado um antigo campo de acolhimento da Organização Internacional das Migrações e que é desde há várias semanas o principal ponto de encontro dos militares contestatários.
Paralelamente, estava a decorrer hoje à tarde na residência do primeiro-ministro, Mari Alkatiri, uma reunião com os ministros do Interior, Rogério Lobato, e o Ministro dos Negócios Estrangeiros, José Ramos Horta.
José Ramos Horta é o membro do Governo timorense que tem assumido as negociações com os manifestantes.
Apesar de o serviço de telemóveis estar a funcionar de forma intermitente, o consulado de Portugal distribuiu um alerta por SMS (mensagem escrita através de telemóvel) aos portugueses, recomendando que ficassem em casa durante a noite.
Um dos feridos é um polícia que fazia a segurança do Palácio do Governo, disse à Lusa uma fonte do gabinete do primeiro-ministro Mari Alkatiri.
Os incidentes que se verificaram hoje junto ao Palácio do Governo causaram ainda estragos materiais, sendo que os mais visíveis foram no próprio edifício - que ficou com muitas janelas partidas - e em três viaturas, que foram incendiadas.
Os incidentes que ocorreram hoje ao princípio da tarde em Dili (início da manhã em Lisboa), e durante os quais foram disparados tiros, surgem na sequência das manifestações que se sucedem desde segunda-feira.
Testemunhos populares referem que o mercado Taibessi foi também na tarde de hoje palco de incidentes, à semelhança dos desacatos ali registados na quarta e na quinta-feira.
Fonte da embaixada de Portugal e o coordenador da Fundação das Universidades Portuguesas disseram à Lusa que nenhum cidadão português foi apanhado nestes incidentes.
Os incidentes coincidiram com o final de um encontro de empresários no principal hotel da capital de Timor-leste, onde estava previsto um almoço com a participação do Presidente da República, Xanana Gusmão, e do primeiro-ministro, Mari Alkatiri, além de outros membros do governo.
Cerca das 13:30 locais (05:30 em Lisboa), uma viatura da Polícia passou junto ao hotel e informou, através de um megafone, que os manifestantes tinham "atacado" o Palácio do Governo, sem dar mais pormenores.
Xanana Gusmão e Mari Alkatiri foram rapidamente retirados do local, enquanto se ouviam disparos na rua.
Populares que testemunharam os confrontos no local da manifestação declararam à Lusa que os manifestantes furaram as barreiras policiais nessa zona da cidade, a cerca de 100 metros do Palácio do Governo.
Os polícias, indicaram à Lusa os mesmos populares, recuaram perante os militares contestatários.
O gabinete do primeiro-ministro tinha distribuído hoje uma nota em que afirmava que a partir de agora a manifestação dos militares era ilegal "à luz do direito em vigor em Timor-leste".
"O governo, em coordenação com os outros órgãos de soberania, vai pois afirmar a autoridade do estado de direito democrático. Não lhe resta outra solução para repor a legalidade e o respeito pelas instituições e pela ordem pública", assinala a nota.
EL.
Lusa/Fim