31.5.06

Timor-Leste: textos importantes

Timor-Leste: Base de dados de violência de 1999 desapareceu - Procurador-Geral
Lisboa, 30 Mai (Lusa) - As bases de dados da violência de 1999, guardad as na Procuradoria-Geral de Timor-Leste, e dezenas de processos desse período e mais recentes desapareceram ou foram destruídos no saque à sede daquele órgão, d isse hoje o procurador-geral timorense. Contactado telefonicamente pela Lusa em Díli, Longuinhos Monteiro expli cou que os autores dos ataques ocorridos nos últimos dois dias roubaram centenas de computadores que estavam no edifício da Procuradoria-Geral, incluindo os que tinham as bases de dados dos crimes de 1999. "Destruíram muitos processos e o mais importante é a base de dados que tínhamos, que desapareceu", disse à Lusa, referindo-se quer aos gabinetes princi pais da procuradoria quer aos da secção de Crimes Graves, que investigou os proc essos dos massacres de 1999, em que morreram cerca de 1.500 timorenses. "Alguns documentos dos arquivos nacionais e processos que estão em inve stigação e outros de pessoas na cadeia também desapareceram", afirmou. Os processos de 1999 referem-se à onda de violência levada a cabo por m ilícias pró-Indonésia, apoiadas por militares indonésios, antes e depois do refe rendo de 30 de Agosto, em que a maioria dos timorenses votou a favor da independ ência de Timor-Leste. Longuinhos Monteiro disse que dezenas de jovens com armas brancas ataca ram os edifícios da Procuradoria-Geral, destruindo equipamento e entrando igualm ente no complexo da Medicina Legal. "Até entraram nos gabinetes dos médicos forenses, onde ainda estavam re stos mortais de vítimas ainda não identificadas dos crimes de 1999. Viraram tudo do avesso e destruíram muitas coisas", afirmou. O procurador-geral timorense manifestou a sua preocupação de que poderá ser "impossível" recuperar uma grande parte dos registos roubados ou desapareci dos, criticando o corpo diplomático e as Nações Unidas por não garantirem a segu rança no local. "Há vários dias que ando a apelar à missão da ONU aqui e às embaixadas da Austrália e dos Estados Unidos - dois dos países que mais dinheiro gastaram n os processos dos Crimes Graves - e ninguém mandou qualquer segurança", afirmou. "Eu bem tentei travar mais roubos, mas sozinho não consigo fazer nada. Os funcionários internacionais que estavam aqui foram retirados do país e nós, o s poucos que aqui ficámos, não conseguimos proteger nada", sublinhou. Longuinhos Monteiro disse que, para já, é impossível precisar se os ind ivíduos envolvidos no saque e na destruição pretendiam apenas roubar equipamento ou outro material ou se pretendiam destruir os processos. "Não posso precisar. Eles roubaram muito equipamento, todos os computad ores e outro material. Arrebentaram as gavetas e os armários que estavam fechado s para roubar coisas do interior", afirmou. "Os danos são elevados e vai ser muito complicado voltar a reconstruir isto. São anos e anos de muito e muito trabalho que desaparecem assim", sublinho u. Longuinhos Monteiro disse que os ataques à Procuradoria-Geral, ao Minis tério da Justiça e a outros edifícios públicos, bem como a onde de saques e dest ruição de propriedade privada em Díli, se assemelham ao comportamento das milíci as pró-Indonésia em 1999. "O comportamento é igual. Agora não há milícias, mas estes indivíduos c omportam-se de mesma maneira. Já não via nada assim desde 1999", comentou. "Saqueiam os sítios e depois queimam-nos. A lei e a ordem não existem, não há polícia e locais como este estão totalmente à mão dos atacantes", disse. "É muito triste. Não tenho mais palavras. É muito, muito triste", acres centou. Nos últimos dias, várias pessoas foram mortas e grupos de civis têm saq ueado e incendiado residências e edifícios públicos em Díli, naquela que é consi derada a pior crise no país desde que Timor-Leste se tornou independente a 20 de Maio de 2002. Face à deterioração da segurança na capital, as autoridades timorenses solicitaram ajuda militar e policial à Austrália, Nova Zelândia, Malásia e Portu gal. Uma força de 1.800 militares australianos encontra-se já no terreno, be m como entre 200 e 250 efectivos da Malásia. Uma companhia de 120 militares da GNR deverá seguir para Díli ainda est a semana. A ONU estima em 60.000 o número de pessoas desalojadas devido ao clima de violência em Díli. ASP. Lusa/Fim